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Caçadoras e o conselho, uma analogia sobre o patriarcado

  • Foto do escritor: Graziella Zanfra
    Graziella Zanfra
  • 31 de mar. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de abr. de 2020

Olá fãs de Buffy, tudo bem? No texto inaugural da Magic Box gostaria de discutir um pouco sobre o conselho dos sentinelas e sua relação com a caçadora. Afinal, desde a gênese da caçadora até a explosão de Sunnydale uma estrutura masculina tentou controlar o poder feminino e isso me lembra muito a sociedade em que vivemos...


Estrutura do universo


A origem do poder e do controle - homens das sombras e conselho dos sentinelas


Na origem mitológica da caçadora se encontram os homens das sombras. Estes, para lidar com os demônios que os ameaçavam, "concederam" a uma garota poderes demoníacos. A garota não escolheu aquilo, ela foi violada porque assim quiseram esses homens.


A relação de violação entre a caçadora e a fonte de seu poder é explicitada no episódio Get it Done, da sétima temporada, quando os homens das sombras oferecem mais poder a Buffy. Na cena a protagonista aparece acorrentada, rodeada por uma fumaça escura que tenta entrar nela por todos os lados.


Essa violação persiste em toda a linhagem das caçadoras. Na série, ser caçadora não é retratado como um dom, mas como um fardo com que essas mulheres tem que conviver. Uma imposição de um papel que elas devem desempenhar ao longo de suas vidas. Isso te lembra algo?


Para mim, essa narrativa lembra certas imposições de gênero que vivenciamos diariamente. Por exemplo, por sermos mulheres acabamos condicionadas (e pressionadas) a cumprir certos tipos de papel, como de mãe e dona de casa. Papéis estes que não devem ser abandonados nem mesmo se a mulher quer ou precisa cumprir outros papéis. Somos caçadoras não importando se queremos frequentar a U.C Sunnydale ou se precisamos trabalhar no Palácio da Dupla Carne.


Obs: Ser caçadora também serve para tratar de outros assuntos como responsabilidades, deveres, etc. Porém, neste texto quis fazer um recorte específico.


Deixando os homens das sombras para trás surge o conselho, uma instituição onde, segundo Quentin Travers, a caçadora não passa de um mero instrumento. Uma instituição lotada de homens que tem o papel de controlar a escolhida. Cada caçadora fica a cargo de um sentinela, normalmente um homem (com exceção de Gwendolyn Post na terceira temporada), que exerce autoridade sobre ela.


O sentinela e o conselho detêm conhecimento que eles decidem ou não compartilhar com a caçadora. No final da terceira temporada testemunhamos essa relação de dominação quando o conselho se nega a informar o tipo de veneno com que Angel está infectado. No episódio Checkpoint da quinta, para dar as informações que obtêm sobre Glória, o conselho submete Buffy a uma série de testes físicos e psicológicos que servem apenas para afirmar uma falsa superioridade.


E não vamos nos esquecer do episódio Helpless da terceira temporada, quando a instituição deixa a caçadora inconsciente e injeta uma substancia em seu corpo para deixá-la fraca e jogá-la numa espécie de arena.


Novamente esse comportamento nos lembra da situação da mulher em nossa sociedade, comumente vista e imaginada como algo feito para servir ao homem, algo que pode ser submetido a qualquer tipo de ato que esses assim desejarem. Assim nós e as caçadoras nos encontramos submetidas a uma força que nos restringe acesso ao conhecimento e a nossa própria força.

A sentença da solidão


"Em toda geração há uma escolhida. Ela sozinha enfrentará os vampiros, demônios e as forças da escuridão. Ela é a caçadora".


Na frase que resume a mitologia da personagem é possível reparar em outros dois aspectos. Primeiro numa noção de que sempre haverá uma mulher para fazer o trabalho, tornando-a descartável, já que quando uma morre outra é ativada. Segundo na palavra "sozinha".


Isolar é uma forma de diminuir o poder. Mulheres unidas representam ameça, tanto para o conselho quanto para a sociedade em que vivemos. Tratar-nos como inimigas, dizer que mulheres são falsas e isso e aquilo, que estamos competindo sempre por um homem ou por um ideal de beleza é uma estratégia para diminuir nosso poder, para que ele não se volte contra o conselho.


Além disso, o fato da caçadora ser "única" tenta caracterizar sua força como uma exceção, como se as outras mulheres não fossem dignas ou capazes de possuir tamanho poder.



Buffy questionando as regras desse universo


Mas é aí que está o grande mérito da série. Depois de nos apresentar toda essa estrutura, muito similar a presente em nossa vida, ela nos dá o prazer de acompanhar Buffy destruindo esse poder regulador.


Buffy nunca esteve desacompanhada de auxilio feminino, ou seja, nunca esteve sozinha como proposto pelos homens das sombras. Nos acompanham ao longo dessa jornada Willow, Cordélia, Anya, Tara, Dawn, Joyce, Faith, Kendra, etc. Mulheres maravilhosas, complexas e diferentes entre si, que não assumem estereótipos e comportamentos que esperam que elas sigam. Desde o início a série contraria a noção de mulher excepcional que se espera da protagonista. Buffy precisa e se apoia em outras mulheres.



O caminho trilhado pela personagem nos leva até o grande final em que, com a força de uma outra mulher (Willow), o poder pode ser compartilhado com outras garotas.


Não é só através da companhia de outras mulheres que Buffy domina seu poder. Outra grande subversão que a protagonista faz é em relação ao conselho. Desde a primeira temporada ao simplesmente não acatar todas as ordens de seu sentinela até decidir parar de trabalhar para o conselho (Graduation day part 1) e fazer com que eles trabalhassem para ela (Checkpoint). Dessa maneira Buffy contraria a ideia de que ela é uma mera ferramenta e inverte a relação de poder estabelecida.



Podemos dizer então que toda essa relação apresenta elementos análogos a vivência feminina e, além disso, traz uma heroína para propor uma mudança nela. Tudo isso só torna impossível não amar ver Buffy quebrando a cara de todos que a tentam impedir de seguir seu caminho.


E aí pessoal, vocês concordam com a ideia? Comentem aqui, quero muito saber o que acham! Espero que tenham gostado e até o próximo texto!


1 comentário


Milena Tavares
Milena Tavares
12 de jun. de 2020

Exatamente isso, por isso que acho que a sétima temporada fechou a série com chave de ouro.

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